Ilhéus, a terra do cacau | parte 1

Dia 02 de fevereiro de 2011, peguei o avião rumo à Ilhéus. Pedro e Lúcia Spinola, amigos do meu pai e proprietários de uma fazenda de cacau, me convidaram para conhecer essa terra e as possibilidades do cacau como matéria prima para os meus sabonetes e cosméticos. Eu, que amo viajar, principalmente para lugares desconhecidos, simplesmente adorei a proposta da viagem de pesquisa de matéria prima, unindo o útil e o (muito) agradável. Tenho sorte mesmo de trabalhar com o que gosto e ainda viajar para lugares como Ilhéus e entrar em contato com o fruto que sua terra produz.

Lúcia e eu com a catedral de Ilhéus ao fundo, no fim de tarde do meu primeiro dia na cidade

praia na cidade de Ilhéus

A cidade de Ilhéus é bem simpática, com ótimas vistas e uma brisa constante, bem agradável. Para mim, que passei uma parte da infância no Rio, é muito bom sair de São Paulo e chegar numa cidade com praia. De repente me lembro de que sinto falta disso.

uma pequena igreja com estampa de oncinha numa ladeira em Ilhéus

Nessa tarde, fomos visitar o Instituto Cabruca, uma ONG que tem como sua missão “gerar oportunidades para o desenvolvimento da região cacaueira do Sul da Bahia por meio da valorização e conservação do sistema de produção cacau-cabruca e da Mata Atlântica”. O sistema de produção de cacau no sul da Bahia se chama “cabruca”, que é caracterizado pelo plantio do cacau sob a sombra das árvores da Mata Atlântica após a mata ter sido “cabrucada”, isto é, ter sido raleada deixando-se algumas árvores adultas sombreadoras. É um sistema único no mundo, que vem sendo aplicado há mais de dois séculos na região e seus benefícios são enormes, principalmente no que diz respeito à conservação da biodiversidade. Ele ajuda na redução da erosão dos solos, produz madeira, sementes, óleos e resinas, flores e frutos, possui espécies melíferas, oleaginosas e fixadoras de nitrogênio, além de servir como corredores entre trechos de mata nativa.

Pude ver com os meus olhos e andar com os meus pés numa cabruca de verdade, na fazenda de Pedro e Lúcia, e realmente é um sistema extremamente rico. Você não sente que está numa plantação e sim no meio do mato. Segundo o Instituto Cabruca, estima-se que 70% dos 6.800km2 de plantações de cacau na região do Sul da Bahia seja cabruca, que é considerada uma das mais protegidas do mundo. As variadíssimas espécies nativas encontradas nas cabrucas incluem jatobá, pau brasil, copaíba, vinhático, putumuju, jequitibá, cedro, sapucaia, etc. Toda essa complexa e sofisticada existência ajuda o produtor a otimizar nutrientes, reduzir danos por inseto, aumentar a longevidade do cacaueiro, que pode chegar aos impressionantes 100 anos (perdendo um pouco da produtividade a partir dos 50 anos), e diminuir a dependência de insumos químicos.

O instituto promove pesquisas em técnicas agroecológicas e orgânicas de produção de cacau para famílias de agricultores familiar e assentados rurais, ajuda os produtores na certificação orgânica, promove capacitação e geração de renda a partir da coleta de sementes e produção de mudas florestais nativas em assentamentos rurais, além de participar de diversos meios de diálogo sobre o cacau e sua cultura. Eles realizam também levantamentos sobre a composição de espécies arbóreas existentes nas cabrucas e entrevistas com os produtores de cacau para traçar o seu perfil e a sua relação com aspectos socio-ambientais do meio regional.

Para mim, que não conhecia absolutamente nada sobre o cultivo do cacau, foi uma aula e tanto a conversa que tivemos nesse final de tarde com o Durval Mello, Secretário Executivo do Instituto Cabruca. Conversando sobre a minha produção artesanal de cosméticos naturais e que tipo de matéria prima poderia ser interessante como ingrediente, fiquei um pouco surpresa ao saber que não se produz muito a manteiga de cacau para fins cosméticos naquela região. A produção do cacau, aparentemente, é exclusivamente para fins alimentares, principalmente, como chocolate. Porém, o Durval teve a ideia de me mostrar uma coisa chamada líquor de cacau. É uma pasta espessa obtida através da moagem das sementes do cacau trituradas. A aparência é quase igual a um chocolate meio amargo e o aroma é característico de um chocolate de boa qualidade. Mas ali não tem ainda nem açúcar, nem leite, nem aromatizantes como a baunilha, que compõem um chocolate. É a massa do cacau puro. A sugestão é que eu tente fazer um sabonete de cacau a partir desse líquor. Adorei a ideia! Não vejo a hora de fazer esse experimento.

No dia seguinte, acordamos bem cedinho (ainda bem que lá não tem horário de verão e 6h30 da manhã era 7h30 para o meu relógio biológico de São Paulo :D) e fomos à fazenda de Pedro e Lúcia. Mas antes, passamos numa fazenda de cupuaçu, que ficava no caminho. É que eu tinha mostrado para a Lúcia a minha manteiga de cupuaçu e ela gostou muito, então teve a ideia de me mostrar uma fazenda de cupuaçu que ela conhece, muito bonita e bem organizada.

o fruto do cupuaçu

o cupuaçu na árvore

o cupuaçu só pode ser colhido do chão, depois que tiver amaduecido e caído sozinho

Fomos muito bem recebidos e nos mostraram primeiro o local onde é retirada a polpa da fruta para logo em seguida ser congelada. Ali mesmo na fazenda, eles têm uma camara fria para conservar a polpa. Muito bem equipados! Lúcia e eu quisemos muito saber se eles extraem a manteiga de cupuaçu, e não só a polpa, mas a resposta foi negativa. Que pena, pensamos, pois poderiam aproveitar tanto a polpa quanto a manteiga que se extrai da semente dessa fruta maravilhosa. A manteiga de cupuaçu é um dos melhores hidratantes de pele que existe. Ela tem uma alta capacidade de absorver água e passando na pele, ela ajuda a reter a sua umidade. Deixa a pele super macia e vitalizada. Eu adoro! Além de deixar a pele incrível, tem um aroma natural muito gostoso, um pouco parecido com o da manteiga de cacau. Foi nesse dia que eu soube que o cacau e o cupuaçu são da mesma família!

essa é a flor do cupuaçu. minúscula e muito bonitinha.

Em seguida visitamos a plantação do cupuaçu. Deu para ver as diferentes fases de crescimento do fruto, começando pela flor. Ela é minúscula, mas é dela que nasce o bebezinho do fruto.

o da ponta esquerda é a flor, os dois do meio são bebezinhos do fruto e o fechadinho da direita é antes da flor abrir

Saímos da fazenda de cupuaçu e seguimos rumo à fazenda de cacau Leão de Ouro, de Pedro e Lúcia. Fiquei simplesmente impressionada com a qualidade da estrada daquela região. Acho que não tinha um buraco sequer. O caminho é muito bonito, com várias fazendas e muita vegetação das “cabrucas”.

a estrada impecável da Costa do Cacau

uma das várias fazendas de cacau da região

Chegando na fazenda, a Lúcia me emprestou uma camiseta, uma calça jeans e um par de botas para andarmos nas plantações. O “look” é para se proteger dos arranhões das diversas plantas e de outros possíveis (porém bem raros) problemas maiores como cobra e outros animais, já que a cabruca é uma mata um pouco mais arejada.

sede da fazenda

uma família de patinhos da fazenda

a flor do cacau

Aqui também, pude ver os vários estágios do cacau, desde a flor até o fruto maduro. A flor é uma coisinha pequenininha, quase inexpressiva. Não dá nem pra acreditar que dali nasce um fruto tão poderoso.

um micro bebezinho de cacau nascendo da flor

um bebê que cresceu um pouco e já começa a adquirir a cor e o formato do fruto do cacau

o fruto já crescido do cacau

Existe uma doença chamada Vassoura-de-bruxa, causada por um fungo, que devastou muitas das plantações de cacau de Ilhéus nos anos 90. É um pouco como a filoxera que destruiu os vinhedos na França no século 19. Para se proteger dessa praga, os agricultores estão adotando várias estratégias e uma delas é o uso de variedades clonais resistentes à Vassoura-de-bruxa. A clonagem é a reprodução assexuada da planta e um dos meios para se fazer isso é a enxertia.

muda enxertada

muda de cacaueiro plantada. os pedaços de tronco de bananeira protegem a muda e mantem o solo perto da raíz úmido.

frutos de cacau

cacaueiro carregado de cacau

uma outra variedade de cacau. existem várias.

cacaueiro novo enxertado no antigo, produzindo dois tipos de cacau diferentes

Essa foto de cima é bem interessante. É o exemplo de uma convivência pacífica entre o velho e o novo. A parte de baixo produz a variedade original, mais antiga do cacau, que são esses frutos mais amarelos e um pouco mais arredondados. Uma variedade clonada foi enxertada nela e agora produz, na parte de cima, os frutos do tipo novo, mais avermelhado e comprido.

colhendo um fruto maduro para degustarmos a polpa

esse é o fruto de um cacaueiro bem antigo

que emoção, poder degustar a polpa fresca do cacau colhido na hora!

abrindo o cacau...

a polpa é uma delícia!

uma das várias plantas antigas que cruzamos andando pela cabruca

uma outra, bem antiga e bem original!

outra variedade de cacau a ser degustada

é incrível como cada variedade de cacau tem um sabor diferente. em um, senti um gosto parecido com a maçã. em outro, mais para o abacaxi.

Vendo assim, parece que plantar cacau é só deixar o fruto nascer no mato, junto com as outras espécies nativas. Mas não é nada disso. Dá um trabalho e tanto. Eu acompanhei a caminhada da Lúcia com sua equipe  e vi o quanto de trabalho tem pra fazer. Tem que roçar, aparar alguns galhos de árvores que estão fazendo sombra demais no cacaueiro, verificar a existência de doenças e pragas, conferir o crescimento das mudas recém plantadas e muito mais. A cabruca, não é simplesmente um mato e sim um sistema que precisa ser muito bem equilibrado para os cacaueiros, fazendo um pouco de sombra mas não a ponto de não receberem mais luz.

Já de volta à sede da fazenda depois da caminhada, a Lúcia pegou um saco de amêndoas de cacau já fermentadas e foi cortando-as no meio e colocando-as numa tábua com uns furinhos. Explicou ela que é um método de classificação da fermentação.

a amêndoa do cacau fermentada

cortando a amêndoa do cacau no meio

dá para ver se a fermentação foi bem feita pela cor e pelas veias

Ao cortar as amêndoas no meio, vê-se as veias que se formam em suas partes internas. Esse já é um sinal de boa fermentação. A outra coisa importante a conferir é a cor. Se ela estiver mais roxeada, significa que a fermentação foi atingida, porém que poderia ter ficado mais tempo, ou seja, foi um pouco insuficiente. Quando ela está mais para o marrom escuro, é sinal de que foi bem fermentada. O ideal, disse a Lúcia, é que numa amostra de 100gr, você tenha uma mistura dessas duas cores, pois se tiver só da marrom, pode ser que a fermentação tenha sido excessiva e se tiver só da roxeada, o contrário.

a tábua com os furinhos para classificar as amêndoas de cacau fermentadas

Lúcia conferindo as suas amêndoas de cacau

parece que temos uma boa mistura

To be continued

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2 Respostas para “Ilhéus, a terra do cacau | parte 1

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